terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quem acredita no mago?

Outro dia entrei em uma livraria aqui em Buenos Aires e em uma seção dessas de livros mais vendidos encontrei 4 do Paulo Coelho, todos devidamente traduzidos ao espanhol. Não foi a primeira vez que me dei conta que ele é um fenômeno mundial, mas foi quando parei pra pensar sobre isso. Ali estavam seus livros, ao lado de Maitena e pior, da Mafalda.

Na mesma época abro o jornal e vejo que ele foi escolhido pela ONU para ser Mensageiro da Paz (seja o que isso signifique). Os argentinos perguntam se eu não estou orgulhosa de todo esse reconhecimento internacional que ele tem. Eu deveria estar?

No Brasil existe um preconceito muito grande em relação a esse autor. Reconheço que sou uma das muitas pessoas que defende o "não li e não gostei". Paulo Coelho virou motivo de crítica para praticamente toda uma geração de intelectuais.

Uma vez em uma aula do curso de História da UFF sobre "História e Literatura" surgiu a questão de que até o Paulo Coelho deve ter um lado bom. Algum aluno irônico respondeu imediatemente: "tinha, mas já morreu, era o Raul Seixas.

Passados alguns anos ainda acho graça nesse comentário, mas não posso deixar de pensar que realmente ele deve ter um lado bom (que ainda esteja vivo). Conheço muitas pessoas que gostam de seus livros e o consideram um dos grandes escritores da literatura brasileira.

Seu sucesso internacional também deixa a dúvida: o que será que tem de tão interessante em suas histórias? Não tenho dúvida que ele sabe como escrever, talvez falte aprender o que escrever...

É complicado levar a sério alguém que acha legal publicar algo como:

"O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo e nunca se esquecer da sua missão ou do seu objetivo." O Alquimista.

Nada pior do que escutar citações filosóficas a la Paulo Coelho... Afinal, quem lê seus livros tem essa sensação estranha de achar que isso o faz intelectual, e pior, de achar que é "culto" citar coisas desse nível. Ainda dou mais valor à citações de bêbados em botequins...

Talvez eu devesse ler antes de criticá-lo. Mas o mais difícil para mim não é aceitar seu sucesso. O difícil é pensar que um país que tem em sua história Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Lima Barreto entre muitos otros, tenha conseguido o sucesso no mercado editorial logo com o "mago". Tenho uma lista imensa de autores que quero que ler (e reler) antes de pensar em dar uma oportunidade a Paulo Coelho.

E confesso que ainda prefiro pensar que é somente um acidente ver Brida ali, tão perto da Mafaldinha...

Um comentário:

Renato Rosário disse...

Pois é, Lívia, Paulo Coelho é um fenômeno até muito pouco estudado, eu acho...

Confesso que já li "O Alquimista" quando tinha uns 15 anos de idade, e gostei muito na época. Linguagem fácil, metáforas simples, livro pra ler em uma sentada.

Mas, embora tenha achado um bom livro, nunca me interessei em ler outro dele, e tive oportunidades.

Certo é que padeço às vezes do mesmo mal de ler críticas e me distanciar de alguns autores por causa disso.

Mas, em comparação aos quadrinhos, eu curto tudo (desde super-heróis, até romances em forma de HQ, tiras, infantis ou adultas, e etc.) e não tenho mais preconceito.

E acho que a palavra é essa: Não lemos Paulo Coelho por preconceito! A linguagem é fácil, muitas vezes parece auto-ajuda travestida de romance, é um dos poucos autores que grande parte da população tem acesso, então não damos bola...

Ficamos buscando os Kafkas, Dostoiesvskis, Dantes, Machados e outros...

Estaremos no caminho certo?