domingo, 31 de maio de 2009

Além de Shakespeare

Como já disse, estou tirando o atraso dos clássicos da Literatura. Já tem algumas semanas que resolvi ler On the Road, a famosa aventura norte-americana que influenciou a geração de 1960/70, e o faz até os dias de hoje.

Mas, confesso que me decepcionei um pouco. E assumo que definitivamente o estilo digamos, "inglês"(no sentido do idioma, claro) de literatura não é o meu preferido.

Claro que existem obras maravilhosas, como o que comentei uns posts atrás, Admirável Mundo Novo. Mas On the Road não é, pra mim, mais que um livro comum. A verdade é que tenho um pé atrás com a literatura dos Estados Unidos, que, sem nenhum tipo de discurso pseudo-intelectual e político, considero vazia, prática e objetiva demais. Os livros que normalmente me cativam neste idioma são ingleses, densos, como, claro, Shakespeare. Os livros norte-americanos me dão a sensação de leitura de sala de espera: são livros práticos, pra passar o tempo enquanto esperamos outra coisa, e não o objetivo do momento em que vivemos. Livros, pra mim, são bons quando eles ocupam todo o meu pensamento, todo o dia, e não apenas no metrô pra ajudar a me distrair,

E tudo isso me faz pensar: se pra eles esse é um livro tão espetacular, imagine só se os norte-americanos lessem outra coisa além deles mesmos. Um pouco de literatura fantástica latino-americana, ou um Saramago. Como eles perdem por, na maioria dos casos, não sair daquele mundinho fechado em que vivem...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Cadena de poesía por Benedetti


Acabei de ler sobre o falecimento do escritor uruguaio Mario Benedetti. Li num jornal argentino, infelizmente, os meios de comunicação do Brasil não parecem achar que isso merece algum destaque (salvo um pequeno link à esquerda na Folha de São Paulo).

Esta é mais uma das notícias que não consigo me conformar. Sei que ele já estava com 88 anos, doente, mas não me importa. A perda de uma pessoa tão fantástica sempre me causará tristeza, e inconformismo.

Não vou me estender muito, deixo as palavras para Saramago, que há pouco tempo fez um post sobre o estado de saúde de Benedetti. Nesse post, ele divulga um blog dos weblogs do Clarín com uma homenagem linda e à altura (se isso é possível): Cadena de poesía por Benedetti. Um email, que começou com a mulher de Saramago, Pilar, e diz:

Mario Benedetti está pasando horas malas. Hemos pensado que podíamos ponernos a leer sus poemas por todo el mundo y así ayudarlo en este momento. Un poema, por si no tenéis algún libro suyo a mano. Y por si queréis pasarlo a otros amigos.


Neste blog, encontrei também um dos meus poemas preferidos do autor, que reproduzo aqui, para deixar minha singela lembrança. E reiterar de que eu ainda acredito que sim, podemos estar do lado certo das coisas.

Me sirve no me sirve
(Mario Benedetti)


La esperanza tan dulce
tan pulida tan triste
la promesa tan leve
no me sirve

no me sirve tan mansa
la esperanza

la rabia tan sumisa
tan débil tan humilde
el furor tan prudente
no me sirve

no me sirve tan sabia
tanta rabia

el grito tan exacto
si el tiempo lo permite
alarido tan pulcro
no me sirve

no me sirve tan bueno
tanto trueno

el coraje tan docil
la bravura tan chirle
la intrepidez tan lenta
no me sirve

no me sirve tan fría
la osadía

si me sirve la vida
que es vida hasta morirse
el corazon alerta
si me sirve

me sirve cuando avanza
la confianza

me sirve tu mirada
que es generosa y firme
y tu silencio franco
si me sirve

me sirve la medida
de tu vida

me sirve tu futuro
que es un presente libre
y tu lucha de siempre
si me sirve

me sirve tu batalla
sin medalla

me sirve la modestia
de tu orgullo posible
y tu mano segura
si me sirve

me sirve tu sendero
compañero.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

E a política da boa vizinhança?

Eu insisto em ler globo.com, por isso eu mereço ter que ler notícias deste naipe:

Britânica é detida ao ignorar proibição de gritar durante sexo


Os vizinhos reclamaram dos gritos e a justiça, utilizando gravações do ato, condenou o casal a pagar uma multa e os proibiu de fazer barulho.

Eu morei num prédio em Buenos Aires que era um Melrose Place popular, e a gente escutava tudo. Mas tudo mesmo! Uma ex vizinha, que é minha amiga, sempre dava seu show, e algumas vezes eu bati na parede pra ela colocar uma música e tal, né? E depois ríamos quando nos encontrávamos e eu fazia comentários escotos.

Mas também escutei vizinhos que não conhecia, e minha política era bem simples: não dá pra reclamar dessas coisas. Quem o faz é por pura inveja. Como interromper alguém nesse momento pra reclamar que ela está demonstrando muito prazer?

Aposto que o mundo seria um lugar bem melhor, se todos tivessem tão bom sexo.

Veronica Mars entrega a minha idade

Você sabe que tem alguma coisa errada na sua vida quando o seu atual seriado preferido possui o seguinte diálogo:
Veronica: Você possui alguma carteira falsa que eu possa ver?
Wallace: Claro, aqui está.
Veronica: Alguém realmente achou que enganaríamos com identidades falsas com a data de nascimento de 1983?


É, no seriado de 2005-2006, os alunos do tal high school de Neptune acham que quem nasce em 1983 é velho.

Mas eu continuo adorando minha nova amiga Veronica Mars!

O tempo nem sempre resolve tudo

Dia 09 completaram-se 8 anos que perdi minha avó. Ou que a tiraram de mim, já que não sinto a culpa que "perder" implica.

É costume dizer que o tempo cura dores desse tipo. Mas quem já passou por isso -e imagino que aqui podemos incluir quase todos nós- sabe que, também aqui, o tempo é relativo. Porque a saudade, o amor, coisas assim são a-temporais. A gente sente sempre, o tempo todo, não importa quantos anos do calendário gregoriano se passaram.

O que o tempo permite é continuar. Cada dia é como se fosse mais compreensível o "seguir em frente". Porém, tampouco é aceitar.

E a ausência ficará pra sempre, em alguns momentos mais forte que outros. Hoje, por exemplo, é mais forte que há um ano, ou que há dois anos. Não sei explicar, nem sei se isso é possível de ser explicado. Simplesmente o tempo cronológico não é suficiente para quem lida com seus sentimentos.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Meu caderno

Resolvi escrever. Num caderno, como se fazia antigamente. Pra transbordar a angústia. Talvez se eu colocar tudo no papel, é menos coisa pra me incomodar. Talvez fique mais fácil entender. Ou, se eu tiver sorte, talvez tudo o que eu sinto no papel perca o peso, a importância, sejam apenas palavras sem sentido algum.

Então, eu vou escrever. Sem importar o "talvez" que me leve a isso.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ainda na literatura

Retornando ao "Admirável Mundo Novo", fiquei bem mexida com esse livro. Eu já imaginava, não é a toa que ele é um clássico da literatura mundial. Mas ele me fez refletir ainda mais questões que eu já reflito sempre. E é sempre bom a gente ver que alguém pensa parecido. Mas ao mesmo tempo, é decepcionante saber que, quase um século depois, o livro ainda é tão atual, porque tudo que ele critica continua aí, talvez ainda mais forte.

Eu poderia citar praticamente toda a parte final do livro, quando o Selvagem se encontra com o Administrador. Mas essa foi a que mais me chamou a atenção:

-[Selvagem] Mas eu gosto dos inconvenientes.
-[Administrador] Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.
-Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
-Em suma - disse Mustapha Mon -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.
-Pois bem, seja - retrucou o Selvagem em tom de desafio. - Eu reclamo o direito de ser infeliz.
-Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer, no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifóide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.
-Eu os reclamo todos - disse finalmente o Selvagem.
Mustapha Mond encolheu os ombros.
-À vontade - respondeu.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Leitura para imigrantes

Li rapidinho Budapeste, do Chico Buarque. Muito bom, mas recomendo especialmente aos que, como eu, já estiveram (ou estão) na situação de imigrantes, em um país com outro idioma.

Devia ser proibido debochar de quem se aventura el língua estrangeira (p. 5)

É realmente frustrante quando estamos aprendendo outro idioma, a cabeça confusa, tentando formular frases e idéias, e alguém ri do seu sotaque.

Além disso, o livro é também para aqueles que, como eu, em algum momento ficaram tão afastados do português (ou do seu idioma pátrio), que acharam estranho quando o escutaram novamente no dia-a-dia:

Ali, por uns segundos, tive a sensação de haver desembarcado em país de língua desconhecida, o que para mim era sempre uma sensação boa, era como se a vida fosse partir do zero. Logo reconheci as palavras brasileiras, mas ainda assim era quase um idioma novo que eu ouvia, não por uma ou outra gíria mais recente, corruptelas, confusões gramaticais. O que me prendia a atenção era mesmo uma nova sonoridade, havia um metabolismo na língua falada que talvez somente ouvidos desacostumados percebessem. Como uma música diferente que um viajante, depois de prolongada ausência, ao subitamente abrir a porta de um quarto pudesse surpreender. E dentro da loja de sucos eu fazia a mais extensa das minhas viagens, pois havia anos e anos de distância entre a minha língua, como a recordava, e aquela que agora ouvia, entre aflito e embevecido (p. 155).

Claro que meu choque não foi da magnitude do que teve o personagem, que esteve mergulhado no idioma húngaro. Mas mesmo com o castelhano, principalmente na época que eu quase não tinha contato com brasileiros, essas coisas acontecem. E é muito, muito estranho quando a sua língua pátria torna-se língua estrangeira.