quarta-feira, 6 de maio de 2009

Leitura para imigrantes

Li rapidinho Budapeste, do Chico Buarque. Muito bom, mas recomendo especialmente aos que, como eu, já estiveram (ou estão) na situação de imigrantes, em um país com outro idioma.

Devia ser proibido debochar de quem se aventura el língua estrangeira (p. 5)

É realmente frustrante quando estamos aprendendo outro idioma, a cabeça confusa, tentando formular frases e idéias, e alguém ri do seu sotaque.

Além disso, o livro é também para aqueles que, como eu, em algum momento ficaram tão afastados do português (ou do seu idioma pátrio), que acharam estranho quando o escutaram novamente no dia-a-dia:

Ali, por uns segundos, tive a sensação de haver desembarcado em país de língua desconhecida, o que para mim era sempre uma sensação boa, era como se a vida fosse partir do zero. Logo reconheci as palavras brasileiras, mas ainda assim era quase um idioma novo que eu ouvia, não por uma ou outra gíria mais recente, corruptelas, confusões gramaticais. O que me prendia a atenção era mesmo uma nova sonoridade, havia um metabolismo na língua falada que talvez somente ouvidos desacostumados percebessem. Como uma música diferente que um viajante, depois de prolongada ausência, ao subitamente abrir a porta de um quarto pudesse surpreender. E dentro da loja de sucos eu fazia a mais extensa das minhas viagens, pois havia anos e anos de distância entre a minha língua, como a recordava, e aquela que agora ouvia, entre aflito e embevecido (p. 155).

Claro que meu choque não foi da magnitude do que teve o personagem, que esteve mergulhado no idioma húngaro. Mas mesmo com o castelhano, principalmente na época que eu quase não tinha contato com brasileiros, essas coisas acontecem. E é muito, muito estranho quando a sua língua pátria torna-se língua estrangeira.

3 comentários:

R R disse...

Adorei Budapeste. Pra ler numa sentada. Foi sua Mãe que me deu de aniversário anos atrás, Livinha.

Você recomendou pra quem tá em outro país, com outra língua, mas eu recomendo pra todos, é excelente e dá pra sentir na pele mesmo sem ter passado pela mesmo caso dele.

Beijão!

Túlio disse...

eu pessoalmente nao curto o Chico Buarque como escritor.

Talvez deveria ler de novo agora que tb tive essa experiência de estrangeirice!

Lívia disse...

Tato, realmente, recomendo para todos. Mas essas crises idiomáticas são típicas de imigrantes... fácil de se identificar!


Túlio, você leu Budapeste? Achei legal, prefiro o Chico músico, mas me identifiquei muito com essa questão do idioma.

Beijos nos dois!