quinta-feira, 4 de junho de 2009

Não só eu apoio


Eu apoio as cotas na Universidade pública. Tanto a cota racial como a cota de renda. E sei que minha opinião é muito polêmica, especialmente no meio social em que vivo, no qual praticamente todos são afetados negativamente pela medida. E continuo apoiando, cada vez com mais certeza de que isso é parte de um longo caminho, mas uma parte necessária.

O fato de eu apoiar as cotas não significa que eu acho que elas, sozinhas, resolvem o problema da exclusão e da péssima educação da maioria da população brasileira. Acredito que as cotas fazem parte de um grupo de políticas necessárias para permitir uma educação democrática nesse país vergonhosamente tão desigual. Sei que são necessárias medidas a longo prazo, principalmente a melhora do ensino fundamental e médio, o que permitiria a todos uma disputa igual ao acesso à universidade. Mas o que dizer aos que estão agora no momento de ingresso: "Sinto muito, mas você nasceu alguns anos (ou décadas) antes da hora"?

E sim, acho que o país possui uma dívida com os negros e índios. Não, não acho que eles são inferiores e por isso precisam ser favorecidos. Esse é o argumento mais medíocre dos que se colocam contra tais medidas. O que eu acho, e minha formação como historiadora só aumenta esta certeza, é que esses grupos sociais, por sua etnia, foram durante séculos explorados e excluídos da nossa sociedade que, por esses mesmo período, lutou para ser e manter-se elitista e branca-européia. A Proclamação da República e a Abolição da Escravidão, no final do século XIX, não foram fórmulas milagrosas de inserção social, e isso todo mundo pode ver no dia-a-dia. Nenhum tipo de política social foi feita, indenização paga, e foi como se negros e índios simplesmente tivessem que "esquecer" e "perdoar" toda a exploração sofrida para serem "iguais". E nunca foram iguais. Nem a igualdade na Constituição atual garante esta igualdade na realidade. Somos, sim, um país de "iguais" onde alguns são "mais iguais" que outros.

Por isso, e por muito mais, eu defendo, sim, o sistema de cotas. E fiquei feliz que não sou a única. Abaixo copio o excelente artigo do jornalista Elio Gaspari que saiu ontem na Folha de São paulo sobre o tema. Os cotistas responderam de forma excelente aos seus críticos.

ELIO GASPARI

As cotas desmentiram as urucubacas

Os negros desorganizariam as universidades, como a Abolição destruiria a economia brasileira


QUEM ACOMPANHASSE os debates na Câmara dos Deputados em 1884 poderia ouvir a leitura de uma moção de fazendeiros do Rio de Janeiro:
"Ninguém no Brasil sustenta a escravidão pela escravidão, mas não há um só brasileiro que não se oponha aos perigos da desorganização do atual sistema de trabalho."
Livres os negros, as cidades seriam invadidas por "turbas ignaras", "gente refratária ao trabalho e ávida de ociosidade". A produção seria destruída e a segurança das famílias estaria ameaçada.
Veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou (ou será que alguém duvida?).
Passados dez anos do início do debate em torno das ações afirmativas e do recurso às cotas para facilitar o acesso dos negros às universidades públicas brasileiras, felizmente é possível conferir a consistência dos argumentos apresentados contra essa iniciativa.
De saída, veio a advertência de que as cotas exacerbariam a questão racial. Essa ameaça vai completar 18 anos e não se registraram casos significativos de exacerbação. Há cerca de 500 mandados de segurança no Judiciário, mas isso nada mais é que a livre disputa pelo direito.
Num curso paralelo veio a mandinga do não-vai-pegar. Hoje há em torno de 60 universidades públicas com sistemas de acesso orientados por cotas e nos últimos cinco anos já se diplomaram cerca de 10 mil jovens beneficiados pela iniciativa.
Havia outro argumento: sem preparo e sem recursos para se manter, os negros entrariam nas universidades, não conseguiriam acompanhar as aulas, desorganizariam os cursos e acabariam deixando as escolas.
Entre 2003 e 2007 a evasão entre os cotistas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro foi de 13%. No universo dos não cotistas, esse índice foi de 17%.
Quanto ao aproveitamento, na Uerj, os estudantes que entraram pelas cotas em 2003 conseguiram um desempenho pouco superior aos demais. Na Federal da Bahia, em 2005, os cotistas conseguiram rendimento igual ou melhor que os não cotistas em 32 dos 57 cursos. Em 11 dos 18 cursos de maior concorrência, os cotistas desempenharam-se melhor em 61 % das áreas.
De todas as mandingas lançadas contra as cotas, a mais cruel foi a que levantou o perigo da discriminação, pelos colegas, contra os cotistas.
Caso de pura transferência de preconceito. Não há notícia de tensões nos campus. Mesmo assim, seria ingenuidade acreditar que os negros não receberam olhares atravessados. Tudo bem, mas entraram para as universidades sustentadas pelo dinheiro público.
Tanto Michelle Obama quanto Sonia Sotomayor, uma filha de imigrantes portorriquenhos nomeada para a Suprema Corte, lembram até hoje dos olhares atravessados que receberam ao entrar na Universidade de Princeton. Michelle tratou do assunto em seu trabalho de conclusão do curso. Ela não conseguiu a matrícula por conta de cotas, mas pela prática de ações afirmativas, iniciada em 1964. Logo na universidade onde, em 1939, Radcliffe Heermance, seu poderoso diretor de admissões de 1922 a 1950, disse a um estudante negro admitido acidentalmente que aquela escola não era lugar para ele, pois "um estudante de cor será mais feliz num ambiente com outros de sua raça". Na carta em que escreveu isso, o doutor explicou que nem ele nem a universidade eram racistas.

Um comentário:

Julieta Abiusi disse...

Tb apoio, Li. Pelos mesmos motivos q vc. É uma pena q tenha q ser assim, mas já é um caminho.
Bj!