quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Da série "coisas que os pais fazem sem noção" 1


Levar os filhos pequenos pra reunião de sindicato.

Pos é, sou filha de sindicalista. Agora é um decepcionado com a política e tal, mas na década de 80, quando morávamos no interior de São Paulo, meu pais era sindicalista. E um belo dia ele, que achava que seus 3 pestinhas tinham consciência social e política (sim, ele achava isso!), resolveu nos levar para uma reunião, todo orgulhoso.

Nós sentamos com a mamy, eu devia ter uns 5 anos, minha irmã uns 6 e o caçulinha 3. Sentamos bonitinhos, mamy dizia "Hoje vamos apoiar o papai, tem que ficar quietinho", e nós ficávamos, éramos bem tranqüilos. Tava tudo indo bem, até que um ser começa a fazer um discurso, e solta a seguinte frase:

-Nós temos que combater a iniciativa privada (algo assim, essas frases clássicas)...


E minha irmã, baixinho, fala:

-Ele disse "privada"...


E pronto. Os 3 começam a rir, descontrolados. Meu pai lá na frente, mais vermelho que um tomate, sem conseguir acreditar no que via. Minha mãe mostrou sua atoridade e conseguiu controlar as pestes. Mas aí, o cara que discursava, deu outro mole, parece que não tinha entendido a situação:

Justificar
-E a iniciativa privada...


E minha irmã, não deixou passar:

-De novo...


Dessa vez não teve ameaça que resolvesse, tivemos que sair do lugar. Meu pai, de coração partido.

Foi algo mais ou menos assim, é o que eu me lembro, o importante é que rimos quando o cara falou "privada". E pros que acham que meu pai era um radical, ele tinha razão: nenhum dos filhos deu certo. Minha irmã trabalha na Globo e é economista. Meu irmão é cientista social, mas odeia e foi morar em NY (na casa do capeta!!!), eu fiz História, continuo nisso, mas na primeira oportunidade fugi do país e juntei com um argentino lindo e ultra capitalista.

Já viram "A culpa é de Fidel"? Minha infância foi bem parecida. Na cena que levam os filhos pra passeata, ri horrores, me identifiquei muito. Nós íamos a carreatas, lembro das nossas camisas de 89 "Minha mãe vota no Lula, e a sua?".

Não, eu não me traumatizei. Pelo contrário: conto tudo isso com muito orgulho, e hoje nos juntamos os 5 e rimos juntos disso. Por isso que política é algo tão cotidiano pra mim. Acreditar na nossa capacidade de mudar o mundo, isso é bom demais.

2 comentários:

El Basto disse...

Ultra Capitalista? Em verdade? Acho que não.

Julieta Abiusi disse...

Adorei a Culpa é do Fidel. E mesmo sem ter uma cultura política acredito, muito, na possibilidade de fazer parte de um projeto em comum.
Beijo com saudade, Li!